(dizem que) Betânia, há muitos anos, sempre pedalava pela avenida paulista, sob chuva, sob sol, Betânia sempre pedalava pela avenida paulista. (dizem que) era uma mulher de idade, provavelmente com mais de 50, já que a descreviam como uma rebordose sessentista ambulante, de roupas coloridas e amplo capacete capilar esvoaçante em sua bicicleta sempre pedalando pela avenida paulista.
(dizem que) ela sempre brigava com os motoristas, motoboys, transeuntes, sejá lá quem ameaçasse atrapalhar o seu trajeto enquanto ela pedalava pela avenida paulista. gritava, xingava, gesticulava — tudo isso sobre a bicicleta, não necessariamente sempre olhando para a frente enquanto xingava e pedalava pela avenida paulista, sob chuva, sob sol. todos que costumam pedalar pela avenida paulista conhecem Betânia ao menos de vista, ou de estórias.
(pelo que me lembro) nunca vi Betânia pedalando pela avenida paulista, talvez por ser eu basicamente um pedestre e observar mais meus semelhantes pedestres do que os evoluídos & admiráveis ciclistas que pedalam, sob chuva, sob sol, pela avenida paulista, sem poluir ou irritar, exercitando seu corpo & seu espírito pedalando, sob chuva, sob sol, por entre ônibus, carros, motos e outros monstros mecânicos da fauna urbana.
dois dias atrás, quarta-feira dia 14 de janeiro de dois mil & 9 (já?), pouco antes do meio-dia, Betânia pedalou pela avenida paulista, sob sol quente, pela última vez graças a um monstruoso ônibus que não contente em ultrapassá-la passou a por debaixo de suas rodas, pouco antes do meio-dia, pouco ao lado da frente do prédio no qual eu estava. a notícia veio da sala, conferi pela janela. um grande saco preto cobria Márcia Regina de Andrade Prado, 40, faleceu nessa quarta-feira, dia 14 de janeiro, ao ser atropelada por um ônibus enquanto pedalava na avenida paulista.
ninguém noticiou a morte de Betânia, apenas a de Márcia Regina, mais nova e recatada do que a personagem que me fora apresentada aos poucos durante as quase quatro horas que aquele corpo já sem vida permaneceu bloqueando uma das pistas da avenida paulista naquela chuvosa tarde de quarta-feira, gerando 1,1 km de engarrafamento na avenida paulista naquela quente ènsolarada tarde que — (talvez) em homenagem à Betânia (ou à Marcia Regina?) — tornou-se chuvosa e lavou o que sobrara da cilclista de 40 anos que fora atropelada e noticiada por todà web naquela quente & chuvosa tarde de quarta-feira, 14 de janeiro de dois mil & 9 (já?), quando pedalava pela avenida paulista sob o sol.
P.S.: dois dias depois descobri que tudo não passou de um boato. Betânia foi vista, sob o sol, pedalando e (talvez) fumando um cigarro pela avenida paulista. Márcia Regina foi homenageada pelos ciclistas, que desenharam no chão da faixa onde ela foi atropelada uma cruz branca.
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